Something dangerous about the boredom of teenage girls: livros sobre garotas assassinas

Faz meses – quiçá anos – que eu quero escrever uma lista sobre minha trope favorita na ficção: adolescentes assassinas. Sou fascinada por livros e filmes que subvertem a maldade tradicionalmente associada a garotas adolescentes – a competição e o bullying de Meninas malvadas, por exemplo – e apresentam personagens cruéis e possivelmente sociopatas. Aproveitando as discussões sobre gênero e violência que tenho visto por aí por causa do lançamento do filme Gone Girl (que só não vai pra lista porque os personagens são adultos, mas vale como menção honrosa) e a proximidade do Halloween, decidi que era hora.

Como minha lista original ficou gigante, decidi dividir em categorias, e fazer um posts para livros, um para filmes e um para séries. Comecemos, então, pelos livros:

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Dare me, Megan Abbott

“There’s something dangerous about the boredom of teenage girls”

As personagens principais de Dare me são cheerleaders, mas não espere diversão, leveza e superficialidade como em Bring it on. Para ser uma cheerleader é preciso disciplina, força, equilíbrio, ambição e saber o seu lugar na pirâmide – metafórica e literamente. Addy e Beth, as adolescentes que protagonizam o romance, são melhores amigas num equilíbrio preciso e delicado, desestabilizado pela chegada da nova treinadora da equipe e pela destruição que ela traz.

A autora, Megan Abbott, é maravilhosa, e amo todos os livros dela que li. Escolhi Dare me para a lista porque é meu favorito, mas fica aqui a recomendação de The fever, The end of everything e Queenpin, todos lindos e perturbadores.

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The basic eight, Daniel Handler

“I hadn’t felt such disgust for a boy since the early days, when they’d tease girls on the playground, kicking us and throwing gravel and raising their voices in high screechy mockery. “They do that because they like you,” all the adults said, grinning like pumpkins. We believed them, back then. Back then we thought it was true, and we were drawn toward all that meanness because it meant we were special, let them kick us, let them like us. We liked them back. But now it was turning out that our first instincts were right. Boys weren’t mean because they liked you; it was because they were mean.”

Eu já tinha sido convencida de que o Daniel Handler conseguia escrever a voz de garotas adolescentes como ninguém – mesmo sendo um homem de meia-idade – quando li Why we broke up, mas The basic eight foi o que confirmou a tese. Contado em primeira pessoa por sua narradora assassina nada confiável, The basic eight detalha o que levou a colegial Flannery Culp a matar uma pessoa. A sinopse da quarta capa do livro já diz tudo: “It’s true that high school can be so stressful sometimes. And it’s true that sometimes a girl just has to kill someone. But Flannery wants you to know that she’s not a murderer at all — she’s a murderess.”

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The secret history, Donna Tartt

“It’s a very Greek idea, and a very profound one. Beauty is terror. Whatever we call beautiful, we quiver before it. And what could be more terrifying and beautiful, to souls like the Greeks or our own, than to lose control completely? To throw off the chains of being for an instant, to shatter the accident of our mortal selves? Euripides speaks of the Maenads: head thrown I back, throat to the stars, “more like deer than human being.” To be absolutely free! One is quite capable, of course, of working out these destructive passions in more vulgar and less efficient ways. But how glorious to release them in a single burst! To sing, to scream, to dance barefoot in the woods in the dead of night, with no more awareness of mortality than an animal! These are powerful mysteries. The bellowing of bulls. Springs of honey bubbling from the ground. If we are strong enough in our souls we can rip away the veil and look that naked, terrible beauty right in the face; let God consume us, devour us, unstring our bones. Then spit us out reborn.”

Assim como The basic eight, The secret history é uma história de mistério e assassinato um pouco fora do comum: desde o começo, sabemos quem foi responsável pelo assassinato; no entanto, não sabemos como nem por quê ocorreu. Nesse caso, os criminosos são um grupo de jovens estudantes de Antiguidade Clássica na faculdade, parte de uma turma super exclusiva de Grego Antigo, com aulas dadas por um professor misterioso. Os jovens do grupo incluem Richard Papen, o narrador, Francis Abernathy, Henry Winter, Bunny Corcoran e os gêmeos Charles e Camilla Macaulay – a jovem garota que permite a inclusão do livro nessa lista.

Confesso que foi difícil escolher entre The secret history e The little friend como representante da Donna Tartt – o primeiro é meu favorito mas se encaixa no tema meio marginalmente, enquanto o segundo tem uma protagonista feminina adolescente vingativa mas não tem a crueldade do primeiro. Não resisti à vontade de citar The secret history, então fui com ele mesmo, mas insisto em recomendar The little friend, também incrível.

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The bloody chamber and other stories, Angela Carter & My mother she killed me, my father he ate me: forty new fairy tales, edited by Kate Bernheimer

“She herself is a haunted house. She does not possess herself; her ancestors sometimes come and peer out of the windows of her eyes and that is very frightening.”

“But a story never told is also a danger, particularly to the people in it.”

Essas duas coletâneas de contos de fadas podem parecer um pouco fora do padrão, mas na realidade estão cheias de contos em que a Chapeuzinho é mais perigosa do que o Lobo Mau. The bloody chamber and other stories reúne histórias escritas por Angela Carter, que retoma as origens sombrias dos contos de fadas que a Disney neutralizou para a gente. Já My mother she killed me, my father he ate me tem contos de vários autores contemporâneos – incluindo Neil Gaiman, Joyce Carol Oates e Shelley Jackson – que subvertem e atualizam as histórias que já conhecemos tão bem, e também algumas menos populares.

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Sharp objects & Dark Places, Gillian Flynn

“I was not a lovable child, and I’d grown into a deeply unlovable adult. Draw a picture of my soul, and it’d be a scribble with fangs.”

“And near it, my first word, slashed on an anxious summer day at age thirteen: wicked. I woke up that morning, hot and bored, worried about the hours ahead. How do you keep safe when your whole day is as wide and empty as the sky? Anything could happen. I remember feeling that word, heavy and slightly sticky across my pubic bone. My mother’s steak knife. Cutting like a child along red imaginary lines. Cleaning myself. Digging in deeper. Cleaning myself. Pouring bleach over the knife and sneaking through the kitchen to return it. Wicked. Relief. The rest of the day, I spent ministering to my wound. Dig into the curves of W with an alcohol-soaked Q-tip. Pet my cheek until the sting went away. Lotion. Bandage. Repeat.”

Não incluí Gone girl, mas os outros dois livros da autora, Gillian Flynn, estão liberados. Ambos são aterrorizantes, e me deram pesadelos por um tempo, mas são mistérios impossíveis de deixar de lado até saber o que acontece no final. Em Sharp objects, a repórter Camille Preaker, logo após sair de um hospital psiquiátrico, retorna à casa de sua família em sua pequena cidade natal para cobrir a investigação sobre o assassinato de duas pré-adolescentes. Já em Dark places, Libby Day decide descobrir o que realmente aconteceu na noite em que sua família foi assassinada, supostamente por seu irmão mais velho. Nos dois livros, o confronto das mulheres com suas vidas de adolescente, suas famílias tóxicas e suas cidades pertencentes a um filme de terror é tão bem construído que mesmo eu – sem família tóxica, no meio do Rio de Janeiro – me senti presa numa casa caindo aos pedaços no Kansas.

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Kick-Ass, Mark Millar

“It didn’t take a trauma to make you wear a mask. It didn’t take your parents getting shot… or cosmic rays or a power ring… Just the perfect combination of loneliness and despair.”

E se pessoas comuns decidissem agir como super-heróis no mundo real? É essa a premissa da graphic novel Kick-Ass, que virou um filme (esteticamente legal, mas que distorce a mensagem do texto, na minha opinião). E, bem, o que acontece é que: não dá tão certo assim. Diferente dos típicos quadrinhos de super-heróis, em que a violência é tornada em algo emocionante de filmes de ação, em Kick-Ass a violência praticada pelos vilões e pelos heróis é muito real, e as consequências também – afinal, você não volta à vida se você não é um X-Men. Nesse mundo violento dos wannabe super-heróis de Kick-Ass, temos o protagonista adolescente, cujo codinome dá título ao livro, mas também temos Hit-Girl, uma garota de 11 anos que assassina brutalmente “vilões”, treinada por seu pai, o também super-herói Big Daddy McCready. Hit-Girl fez tanto sucesso que ganhou até seus próprios quadrinhos homônimos.

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