Feeding the trolls: sobre medo, exposição e internet

[TW: menções de ameaças de violência e de incitação ao suicídio]

Eu cresci na internet. Meus últimos mais de 10 anos de vida estão espalhados pela rede, de detalhe em detalhe, por fóruns, emails, blogs, redes sociais já defuntas, rastros e mais rastros de todos os meus percursos desde criança, fáceis de achar com a ajuda do Google e um pouco de empenho. Meu Instagram é aberto, meu Twitter também, e boa parte dos posts do meu Facebook. Insisto nisso, nessa exposição, porque me atrai a ideia de tomar poder sobre minha própria narrativa: de que eu tenho poder sobre minha história e minhas informações, que eu escolho como e quando divulgá-las e que, fazendo isso, ninguém pode usá-las contra mim. É uma estratégia que eu admiro em artistas (em níveis e formas diferentes, a Taylor Swift, as Kardashians e o James Franco são experts no assunto) e que se alinha com minhas posições pró-selfie, pró-oversharing, pró-TMI, pró-desmantelar os limites entre online e offline.

Mas, ultimamente, tenho ficado com medo. Relatos de trolls violentos na internet têm aparecido por todos os lados: toda a história do GamerGate e o assédio sofrido pela Brianna Wu; o depoimento recente da brasileira Ana Freitas; as ameaças de assassinato em massa para intimidar Anita Sarkeesian; a conversa de Lindy West com uma pessoa que a ameaçou no This American Life; essa matéria sobre duas pessoas presas na Inglaterra por ameaças feitas pelo Twitter; and so on, and so forth. Enquanto isso, a Capitolina, revista que eu edito, tem tido cada vez mais visibilidade. E, por consequência, cada vez mais comentários desagradáveis, dos ridículos aos assustadores. Quando saímos na Folha de S. Paulo, não tive coragem de ler os comentários – só li os que amigas me mandaram diretamente, e acreditei que era melhor me abster quando minha irmã disse que queria chorar lendo alguns.

Normalmente, eu fico responsável por moderar os comentários no site. Porque, sim, moderamos os comentários. Para que a revista seja um espaço seguro para garotas adolescentes, não podemos deixar comentários grosseiros, desrespeitosos ou violentos passarem por nosso crivo. Por causa dessa moderação, as leitoras, felizmente, não têm que lidar com eles. Mas, para isso, eu tenho que lidar com eles antes.

Procuro, sempre, seguir a técnica Taylor Swift: haters gonna hate, hate, hate, hate, hate and I’m just gonna shake it off. Mas tem dias em que é difícil. Tem dias em que os comentários e a violência te colocam para baixo. Tem dias em que ler sobre as ameaças cada vez mais agressivas recebidas por outras mulheres na internet fazem com que eu considere desistir, pagar alguém pra apagar todos os meus traços possíveis online, sair de todas as redes sociais, me proteger desse tipo de ataque.

Os comentários que recebemos não costumam ser assustadores em si, ou explicitamente violentos. Normalmente, são microagressões, ofensas batidas, acusações de “vitimismo” e de “falta de rola”. Até o momento, o único comentário que recebemos que, por si só, ativamente me fez mal foi o seguinte, em resposta a este post:

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Não foi diretamente direcionado a mim. Não é nem uma ameaça exatamente. Mas abrir o Disqus para moderar comentários e ler a frase “(…) peguem uma corda, amarrem num palanque, e se enforquem.” me desestabilizou. Ainda mais, me desestabilizou o fato de que isso vem de alguém que “nem perdeu tempo lendo essa palhaçada”; vem de alguém que tem tanto ódio para cuspir que não hesita em dizer pra pessoas que escreveram algo – algo que ele nem sabe o que é – que elas deviam se matar em vez de escrever.

Nas matérias que li em que agressores/bullies/trolls/qualquer-que-seja-o-melhor-nome foram entrevistados, eles dizem que estavam entediados, não tinham nada melhor pra fazer, e decidiram xingar alguém na internet; que nem tinham lido o que a pessoa escreveu, que nem sabiam exatamente o que ela fazia, mas que viram alguém xingando ela e acharam que parecia divertido; que não viram nada demais em ameaçar violência, em invadir a vida de alguém, em fazer aquela pessoa sentir medo; que a validação que sentiram de outros bullies/trolls/agressores foi maior do que qualquer preocupação por fazerem mal a alguém. A irracionalidade e a violência gratuita dessas pessoas me aterroriza. É um pouco como se meus bullies de colégio – que funcionavam de forma semelhante, vendo diversão inocente em me fazer chorar no recreio, se sentindo mais validados pelas risadas dos colegas do que preocupados com a consequência das suas ações – tivessem passado da adolescência e ganhado mais aliados, mais poder, mais maldade e mais imunidade (afinal, na internet é tão fácil ser anônimo).

Nesses momentos de medo, em que me dou conta que isso só vai piorar, que para ter o nível de exposição e sucesso e alcance que quero com meu trabalho vou me tornar cada dia mais vulnerável a essas pessoas, é difícil continuar. Hoje, quando comecei a escrever este texto, perguntei no Twitter se outras escritoras que publicavam na internet sentiam esse medo também, porque o medo estava batendo por aqui. Muitas disseram que sim, que sentem, que nem publicam textos na internet mas já sofreram assédio online, que deixam de publicar por medo. Mas também me lembraram que essas reações só justificam a importância e a força do que eu faço, e que minha dose de coragem pode ajudar outras pessoas. Por isso, termino esse texto lembrando a Lewis’s Law, que tenho vontade de escrever e colar no meu computador para manter em mente: “the comments on any article about feminism justify feminism”. Quando incomodamos a este ponto, é porque estamos fazendo alguma coisa certa.

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2 comentários sobre “Feeding the trolls: sobre medo, exposição e internet

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