Fake it ‘til you make it: sobre fracasso, farsas e síndrome de impostor

Rainha incerta sobre o mérito à coroa.

Rainha incerta sobre o mérito à coroa.

Ontem (por razões inteiramente pessoais) acordei me sentindo um fracasso. Sabe, um daqueles dias em que a autoestima está no buraco, que você acha que o melhor era nem sair de casa pra não ter que ofender as pessoas com a sua existência, que nenhuma roupa veste bem, que você acha que precisa dar um 180 na vida porque parece que tudo até agora foi uma má ideia. Pois bem, foi bem desse jeito que eu acordei ontem. Aí fui lembrar que já era segunda, tinha passado a semana, e que eu não tinha conseguido completar o #youcandoit, que era simples e fácil e só exigia uma conexão de internet e no máximo duas horas de tempo livre. A sensação de fracasso só piorou: afinal, não sou nem capaz de ver um mísero filme que me comprometi a ver em qualquer momento de sete dias! Falei mais ou menos isso no post de ontem (acabei vendo o filme e não gostando muito), e quando fui postar no meu Facebook me ocorreu: que besteira associar fracasso a uma coisa dessas, né? Que besteira, honestamente, me sentir um fracasso por não ter duas horas livres para ver um filme.

Fui tentar recapitular na minha cabeça tudo de incrível que eu tinha feito durante a semana – as razões pelas quais simplesmente não dava muito pra ver um filme (ou dava, mas eu precisava dormir). Porque, vamos lá, eu tinha tido duas reuniões super importantes (e ainda levemente secretas), participado de uma feira de artes gráficas, tido um ótimo e importante jantar com minha tia, ido a Brasília para participar de um encontro de líderes nacionais, escrito dois textos pra Capitolina (e publicado mais um), feito uma prova de seleção pra pós-graduação, isso tudo depois de um fim de semana em que, dentre outras coisas, fui capa de jornal. Hoje – quando não acordei me sentindo um fracasso – leio essa lista e dá até vergonha de dizer que ontem eu estava me achando uma inútil. Mas ontem – quando acordei me sentindo um fracasso – a lista só me trouxe uma outra sensação ruim: não é que eu era um fracasso exatamente, mas que eu era uma farsa. De alguma forma mágica, tinha convencido toda essa galera – que lê a Capitolina, que me convida pra coisas incríveis, que me diz que eu sou maneira – de que eu era uma pessoa legal e interessante e capaz e poderosa, mas era tudo uma tremenda ilusão. Ou, pior, ninguém achava nada disso, mas eu tinha passado tanto tempo agindo como se eu fosse que a galera só devia ter achado mais fácil, educado e menos constrangedor fingir que eu estava certa, que nem com o imperador e sua roupa nova.

Diagnóstico certo: tinha batido a síndrome de impostor. Basicamente, síndrome de impostor é essa sensação que eu descrevi: mesmo com evidências claras de que você está fazendo coisas legais da vida, você tem certeza que seu único talento é misteriosamente enganar todo mundo porque, no fundo, você é uma farsa. É aquela sensação de quando alguém que você admira diz que te admira e você fica meio “huh mas eu? euzinha? naaaaah que besteira!”; ou quando você te selecionam para um trabalho/projeto/curso e você tem certeza que não pode ser porque tinha tanta gente incrível concorrendo; ou quando você recebe elogios e a reação é dizer “nem sou bonita, é só que fui no cabeleireiro ontem e fiz as unhas e é tudo ilusão da maquiagem”. Costuma bater em mim quando estou em um momento de muitas conquistas e alguma coisa me desestabiliza, por menor que seja: aí rola aquela voz sussurrando na minha cabeça questionando todas as conquistas (que sempre são maiores do que a besteira que me desestabilizou).

A internet está cheia de textos falando sobre o assunto, especialmente do ponto de vista de mulheres (e, num texto incrível, uma crítica super relevante sobre o privilégio de se identificar com essa crise passageira, já que mulheres negras, por exemplo, são permanentemente colocadas nessa posição). Isso tudo porque é esperado que mulheres fiquem quietas, se atenham a “seus lugares”, sejam subalternas; que tenham decoro, modéstia, doçura; que agradeçam por tudo, sejam um receptáculo passivo de acontecimentos, se mantenham silenciosas e sorridentes até alguém salvá-las e colocá-las no lugar certo. E aí, quando você pede coisas, quando se dá bem em algo em que se esforçou, quando oportunidades surgem pelo seu mérito, quando elogios são sinceros e não objetificantes, quando o que você deseja de fato acontece, você não sabe o que fazer. Você (eu) não foi treinada para isso, não aprendeu a reagir a essas situações. Você (eu) volta à modéstia, ao decoro, ao silêncio – agradece, se desculpa por existir, faz questão de dizer que não sabe por que está aí ou por que te acham boa e que espera estar à altura das expectativas. Você (eu) se sente incapaz numa esfera específica da vida e de repente acha que é incapaz em todas as outras: fiz algo errado no trabalho e portanto devo ser feia; olharam feio para minha roupa e portanto devo ser incompetente; levei um fora e portanto devo ser péssima cozinheira – qualquer relação sem sentido dessas parece real na hora.

Hoje acordei me sentindo menos inútil, consegui enxergar minhas conquistas com mais clareza, botei meu salto alto e meu batom vermelho e até experimentei um acessório diferente com um vestido que uso sempre, encarei o dia com mais confiança. Ainda pedi mais desculpas pela minha existência do que eu deveria, mas foi melhor. E foi melhor porque, depois de anos de me sentir impostora com frequência, fui acumulando mecanismos para me sentir melhor: desde a minha rede de apoio maravilhosa a objetos que me dão alguma segurança. E, principalmente, porque descobri que a solução aparentemente contraditória para a síndrome de impostor é… fingir para você mesma. Fake it ‘til you make it, mas para se convencer, e não convencer aos outros (afinal, né, os outros já estão convencidos). No meu caso, uma boa dose de Taylor Swift, Gossip Girl e este quadrinho da Tramp Gramma surtem o efeito motivador para começar o processo, mas varia de caso em caso. Não tenho solução mágica, mas fica aqui minha recomendação para quem está na mesma que eu: tente lembrar sempre das coisas maravilhosas que faz, aceite os elogios das pessoas que te rodeiam, e, em último caso, ouçam a música do vídeo abaixo, meu segredo mais mal-guardado para melhorar qualquer humor:

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