You were never on your own: sobre One Direction, fãs e garotas adolescentes

One Direction, Parque dos Atletas, 8/5/14.

One Direction, Parque dos Atletas, 8/5/14.

Se você frequenta os mesmos círculos de internet que eu frequento, o assunto que mais viu hoje no Twitter foi a saída do Zayn Malik da boyband One Direction. Eu sou fã da banda (anetoda ilustrativa: fui de Pista VIP no show do Rio, enfrentando um engarrafamento de duas horas numa greve de ônibus) e recebi a notícia no caminho para o trabalho, quando a Verônica (minha companheira #1 de fangirling sobre One Direction) me telefonou para contar assim que soube. Na verdade, não fiquei tão surpresa – já estava na cara que isso ia acontecer –, e me afetou menos do que teria me afetado um ano atrás – estou menos investida na banda hoje em dia, especialmente porque fiquei bem decepcionada com o último CD (meu favorito é o terceiro, Midnight Memories, e senti que eles caíram de qualidade no Four). De qualquer forma, foi algo de certa importância pra mim, e teria sido de ainda maior importância um ou dois anos atrás, quando minha paixão pela banda estava em seu auge.

No entanto, mesmo que não fosse o caso, mesmo que eu não desse a mínima pra boybands, mesmo que eu nunca tivesse ouvido falar em Zayn Malik, mesmo que eu não ficasse super emocionada ouvindo “Through the dark”, eu ainda teria ficado irritadíssima com o que vi na internet: um monte de gente zoando as adolescentes que estavam sofrendo por isso, um monte de gente desprezando as fãs que estavam tristes, um monte de adulto achando que emoção de adolescente sobre membro de boyband é “frescura”. Felizmente, meu círculo da internet incluía muito mais gente se posicionando contra esse tipo de reação, mas só bater o olho nos comentários do post do Buzzfeed sobre as reações “dramáticas” das fãs já fez meu sangue ferver.

O que duas adultas fazem na pista VIP.

O que duas adultas fazem na pista VIP.

Existem, a meu ver, dois elementos muito presentes nesse tipo de reação negativa às emoções das fãs: um desprezo (bastante machista) de tudo que é feito por/para garotas adolescentes, e uma violência generacional contra os jovens “desta geração” – como se fossem tão diferentes dos jovens de gerações anteriores.

Um comentário no post do Buzzfeed dizia algo como “que vergonha dos jovens de hoje em dia”, e foi respondido com “bom, é bem parecido com a reação das fãs quando os Beatles acabaram, há décadas”. Porque, vamos lá, é mesmo. O surgimento da categoria “adolescente” é considerado bem recente, e atribuído a questões capitalistas mercadológicas, criando uma faixa idade intermediária entre a criança e o adulto com interesses de consumo específicos, mas adolescentes são adolescentes desde, bem, sempre – mesmo que, antes, fossem só “jovens”. Em A Hard Day’s Night, filme dos Beatles de 1964, hordas de garotas adolescentes correm e gritam e choram e desmaiam quando veem seus ídolos; em This is Us, filme do One Direction de 2013, hordas de garotas adolescentes correm e gritam e choram e desmaiam da mesma forma. Não é uma diferença generacional, não são “as adolescentes de hoje em dia”, os adolescentes da geração seguinte à sua não são piores do que você, agora adulto, quando adolescente. O que me incomoda ainda mais, na realidade, é quando esse discurso é reproduzido pelos próprios jovens: uma nostalgia por algo que não viveu, a ideia de que jovens “antigamente” eram os jovens “certos”, que jovens de hoje são “ridículos”, uma insatisfação com a própria condição de jovem, um claro reflexo de viver em um ambiente em que os adultos desprezam a sua geração.

Outros comentários – os mais frequentes – só desprezavam as adolescentes, ponto. Desprezavam a banda, desprezavam a reação aparentemente desproporcional. Desprezavam o fato de tudo isso ser por uma boyband (considerada musicalmente e culturalmente “inferior”), desprezavam o fato de as reações serem feitas de forma tipicamente feminina e adolescente – lágrimas, superexposição em redes sociais, declarações de amor elaboradas. Algumas pessoas no meu Twitter apontaram o óbvio: tem gente desprezando o sofrimento das garotas por One Direction, mas fazendo tatuagem de Breaking Bad; tem gente desprezando as fãs de uma boyband que estão chorando, mas chorando ainda mais quando o time de futebol perde um campeonato. Há uma discrepância clara entre o que é visto como algo vergonhoso e algo honroso para se ser fã, e a discrepância é baseada em um ponto: é vergonhoso gostar de algo cujo público principal é garotas adolescentes.

Garotas adolescentes são associadas a tudo que há de negativo na feminilidade e na juventude: fraqueza, impulsividade, instabilidade, ora cruéis e manipuladoras, ora frágeis e manipuláveis, ora sedutoras ninfomaníacas, ora inocentes submissas; mas sempre, sempre, sempre ligadas a vergonha, a ignorância, sempre vistas como exageradas cujas emoções e ações são porque “elas não sabem de nada”. Mas eu escrevo isso tudo para questionar por que características e sentimentos naturais, humanos, perfeitamente compreensíveis quando você, como garota adolescente, é pressionada dessa forma, são vistos como negativos, insignificantes, vergonhosos; por que qualquer associação ao ser-garota-adolescente é desprezível a esse ponto.

 

“Dr. Armonson stitched up her wrist wounds. Within five minutes of the transfusion he declared her out of danger. Chucking her under the chin, he said, “What are you doing here, honey? You’re not even old enough to know how bad life gets.” And it was then Cecilia gave orally what was to be her only form of suicide note, and a useless one at that, because she was going to live: “Obviously, Doctor,” she said, “you’ve never been a thirteen-year-old girl.”
– Jeffrey Eugenides, The Virgin Suicides

 

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Hysteria and teenage girls (Hayley Krischer, The Hairpin, 15 mar. 2015)
Uma adolescente chamada Delírio (Lorena Piñeiro, Capitolina, 26 mar. 2015)
O primeiro dia internacional de fanworks (e uma conversa sobre fandom) (Gabriela Martins, Andam Falando, 16 fev. 2015)
Porque internet também é vida real (Sofia Soter, Capitolina, 26 fev. 2015)
http://www.stuffmomnevertoldyou.com/podcasts/teenyboppers-from-musicomaniacs-to-beliebers/”>Teenyboppers: from musicomaniacs to Beliebers (Stuff Mom Never Told You, 7 jan. 2015)
Why take Taylor Swift seriously? (Stuff Mom Never Told You, 5 jan. 2015)

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