TRUSTNO1: sobre primeiro de abril

Aviso logo que, neste post, serei chata. Fui chamada de chata a vida toda, já estou acostumada, e se acharem catártico me chamar de chata nos comentários fiquem à vontade. Já aceitei que certas coisas que digo/penso/faço são consideradas um saco por um monte de gente, mas acredito mesmo nelas então opto por continuar sendo assim. Então, ó, fiquem avisados: sou chata, o post vai ser chato, vou reclamar um monte, se não quiserem me aguentar reclamando um monte podem fechar a janela e voltar pro próximo post, que será mais legal. Tá de boa.

A parada é a seguinte: eu odeio primeiro de abril. Talvez vocês já saibam, por conta da Capitolina, que eu detesto segredos, frustrações e surpresas. Tenho horror a ser enganada, me sinto terrível que escondam coisas de mim, e festa surpresa é meu pior pesadelo (sério, imaginem só: chego em casa exausta, quero minha cama e um livro, aí me aparecem com uma festa, assim sem mais nem menos?). É de se esperar, então, que eu odeie pegadinhas e mentiras de primeiro de abril, desde os links na internet que quando você clica são só piada, às coisas mirabolantes que pessoas inventam para você acreditar e rirem da sua cara depois.

Existir no mundo já exige uma certa dose de desconfiança. Você vai aprendendo, com o tempo, a saber em quem e no que confiar, e mesmo assim essa confiança é ganha aos poucos, em diversos aspectos: o amigo que vai te dar conselhos sinceros, a revista que tem informações úteis, o cliente que te paga sempre em dia. Mas aí eis que chega o primeiro de abril e todas essas pessoas ganham um passe livre para… não serem mais confiáveis. Toda a confiança que foi construída aí deve ser subitamente ignorada por 24h, e retornar ao normal no dia seguinte. Como se fosse todo mundo café com leite, como se uma quebra de confiança “de brincadeira” fosse totalmente inofensiva. Por que, inclusive, essas pessoas gostam da ideia de poder mentir, enganar e fazer piadas às custas dos outros, mesmo que não façam todos os dias? Elas são constrangidas por pressão social a serem confiáveis, mas na hora que dizem para elas que por um dia elas podem ser enganosas elas aceitam a oportunidade? Não é, no mínimo, estranho? Eu, pessoalmente, prefiro não enganar pessoas, ou rir da cara delas, assim, de forma geral.

Mas tudo bem, pessoas se divertem fazendo coisas que eu não acho divertidas. Desde que a pessoa fazendo a pegadinha saiba que a pessoa “caindo” na pegadinha gosta desse tipo de humor, tudo certo – diversão consensual é ótimo. O que acontece, no entanto, no primeiro de abril, é que há uma liberdade geral para pegadinhas sem preocupação com o “alvo”, especialmente na internet. Se você posta uma notícia falsa, ou se você, no seu Facebook, conta algo importante sobre sua vida que não é verdade, isso tem um impacto nas pessoas lendo – você não pode pressupor que todo mundo vai achar engraçadinho quando você revelar que era só uma piada, especialmente as pessoas mais próximas a você, especialmente se a notícia que você deu (seja em um jornal ou uma notícia pessoal no Facebook) teria – caso fosse real – consequências grandes. Postar na internet “OMG, estou grávida!” para depois contar para todo mundo que era brincadeira não só é inteiramente sem graça, como pode impactar pessoas: imagine sua tia lendo o post, correndo para ligar para todo mundo que conhece, e você passando os próximos três meses tendo que explicar para todo mundo que era só uma piada? Além do mais, se uma amiga próxima dá uma notícia dessas, eu me preocupo, quero poder parabenizar a pessoa se era isso que ela desejava, quero poder ajudar se necessário, e é horrível sentir que a sua preocupação não só era por nada – era porque a pessoa estava mentindo.

Entendo e respeito que para muitos isso pode parecer exagero. De qualquer forma, continuo achando a coisa mais bizarra ver graça em enganar um outro, rir de alguém por confiar em você – alguém cuja confiança você conquistou durante o tempo de amizade. E só a ideia de um dia inteiro em que não posso confiar em nada nem ninguém me faz querer fingir que o dia não existe, e me esconder debaixo das cobertas sozinha com o Netflix.

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